"Os Artistas Roubam"
- margemakesart

- 16 de ago. de 2019
- 2 min de leitura
Eclesiastes proferiu a frase célebre "Nada há de novo debaixo do sol". No que toca ao processo criativo e aos métodos de um artista de criar algo novo, esta encaixa que nem uma luva.
Gosto de descrever uma ideia nova e inovadora como a fusão de várias pré-existentes. À semelhança da teoria que todos aprendemos em Físico-Química de que as células provêm sempre de células anteriores, uma boa ideia raramente é pura criatividade: trata-se, também, da fusão de várias anteriores. Daqui em diante, vou intitular este processo "roubar".
Citando o título, "Os Artistas Roubam". Não falo de plágio, nem digo isto com uma conotação negativa: no complexo processo de criar, roubar é inevitável. Não sabemos o que é uma cadeira até nos ser dito ou mostrado. Assim, é impossível escrever um poema sobre uma cadeira ou pintar uma obra sobre ela se nunca tiver contactado com a ideia "cadeira". É esta a ideia de roubar a que quero dar ênfase: espremer o sumo das melhores fontes e, com a simplicidade com que uma criança conta 1+1=2, somar as partes e resultar em algo inovador.
Caminhamos para outro traço essencial num artista: ser-se curioso, mostrar-se interessado. Nada cai do céu: nem o dinheiro, nem as ideias. E, sem ideias, não há obra de arte. Na pele de um artista, devemos perseguir as ideias, procurar inspiração nos quatro cantos do mundo, tentar saciar a insaciável sede de saber e conhecer. Uma vez recolhidas as melhores ideias, o melhor material (para que não leve a equívoco, falo de material com que pensar a obra, tópicos ou ideias), o melhor sumo, reúnem-se condições para levar a cabo uma obra (quase) original.
Pensei este post para desmitificar a imagem romântica do artista dotado de criatividade ímpar e pura. SIM, os artistas roubam, copiam-se uns aos outros. O ato de roubar diferencia-se do plágio na medida em que baralha, reconstrói e transforma a ideia-mãe (que não é ideia-mãe, pois esta surgiu certamente de uma anterior, and it goes on). O verdadeiro dom e talento, ou a verdadeira aplicação da arte no processo, está na forma como se tratam e fundem as ideias; por outras palavras, o que há de maior valor em "roubar" é a inteligência com que se une o que se roubou. Passar a mensagem com uma ideia aparentemente nova, baseada em anteriores que não desvalorizam a originalidade desta, mas que lhe conferem maior destaque e brilho.
Abaixo, um retrato fotográfico de Picasso, um pioneiro em "roubar"no domínio da Arte. Perdeu crédito por se basear nos mestres que mais admirava, sugando o que de melhor encontrava nas suas obras? Antes pelo contrário. A sua pesquisa, sede de saber e coragem de roubar contribuíram para a sua fama enquanto artista e enriqueceram as célebres obras que hoje reconhecemos a metros de distância.
Ponto, parágrafo.

Inspirado no "Somos Todos Artistas", de Will Gompertz. Foi do capítulo com o mesmo título, "Os Artistas Roubam", que espremi sumo para escrever este post.
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